sexta-feira, 1 de abril de 2011

"Tradição e talento individual" (para resenhar)

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ELIOT, T. S. "Tradição e talento individual". In.: Ensaios. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. São Paulo: Art Editora, 1989. Páginas 37 – 48.


No tradicional ensaio de Eliot, de 1919, "Tradição e talento individual" há duas vertentes norteadoras. A primeira consiste no fato de que todo poeta deve escrever com a consciência de seu passado. A outra versa quanto à questão da emoção e da escritura. O ensaísta defende que a poesia não deve ser a reprodução de uma emoção pessoal mas que ela deve tocar um conjunto de experiências que não são, obrigatoriamente, as do poeta em questão. E, se forem as do poeta, elas deveram ser marcadas pela impessoalidade. Deveram passar por um "depurador" o suficiente para transformar a experiência em matéria-prima, sem traços que denuncie o sentimento do poeta, apenas revele o seu talento.
Neste sentido Eliot requer,
consequentemente, uma poesia marcada por uma "característica" impessoal, ou antes, que possa ser de qualquer um, não apenas do autor da poesia. Eliot entende o "impessoal" como um movimento de se desfazer de suas experiências íntimas. Ao agir desta maneira o poeta ocuparia um espaço singular, pois poderia servir de exemplo para outras e também a sua época. Para atingir esse resultado de distanciamento da própria emoção e a transformá-la a ponto de o efeito não trazer resíduos da dor sentida pelo poeta, há um trabalho de "concentração" e ela "expressa um imenso número de experiências; é uma concentração que não ocorre conscientemente nem resulta de deliberação" (1989; 47).
Eliot defende a "concentração" e não a "emoção recolhida em tranqüilidade". Ele opõe a emergência de um poeta através de traços distintivos e pessoais à maturidade do próprio poeta, momento que é determinado pelo fato de ele inscrever a sua produção poética numa ordem que o antecede. Para Eliot "nenhum poeta, nenhum artista, tem sua significação completa sozinho. Seu significado e a apreciação que dele fazemos constituem a apreciação de sua relação com os poetas e os artistas mortos" (1989; 39). Dessa forma, pode se entender que o poeta moderno, para o ensaísta, na sua idade madura, nada mais faz do que ativar o discurso poético que já está pronto. Compete a este poeta dar um novo talento ao que já existia. Entende Eliot que "o objetivo do poeta não é descobrir novas emoções, mas utilizar as corriqueiras e, trabalhando-as no elevado nível poético, exprimir sentimentos que não se encontram em absoluto nas emoções como tais" (1989; 47).
O ensaísta procura desmascarar a crítica moderna, espécie de "preconceito". O crítico que apenas elogia naquilo que, na poesia dele, menos se assemelha à dos outros. O crítico moderno procura dar ênfase ao traço individual, busca valorizar o talento individual do escritor. Eliot diz que aí está um preconceito simples de ser desmascarado: "se nos aproximarmos de um poeta sem esse preconceito, poderemos amiúde descobrir que não apenas o melhor mas também as passagens mais individuais de sua obra podem ser aquelas em que os poetas mortos, seus ancestrais, revelam mais vigorosamente sua imortalidade" (1989; 38). É pelo compromisso do poeta moderno com os poetas mortos, pela afirmação da imortalidade do discurso da poesia, que é possível definir o discurso da tradição em Eliot.
É claro, ele descarta o sentido de tradição que seja apego cego ou tímido às conquistas dos que precedem imediatamente a influência adolescente. Eliot propõe que o sentido da verdadeira tradição está ligado à noção do que ele chama de "sentido histórico": Para Eliot o sentido histórico envolve uma percepção não só da condição passada do passado, mas também da sua contemporaneidade. O autor defende que

[...] o sentido histórico leva um homem a escrever não somente com a própria geração a que pertence em seus ossos, mas com um sentimento de que toda a literatura européia desde Homero e, nela incluída, toda a literatura de seu próprio país têm uma existência simultânea e constituem uma ordem simultânea [...] (1989; 39).







ELIOT, T. S. "A função da crítica". In.: Ensaios. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. São Paulo: Art Editora, 1989. Páginas 49 – 62.


No ensaio "A função da crítica", de 1923, e já desatualizado pelo próprio autor em "As fronteiras da crítica", de 1956, Eliot discute a tradição, focando com nitidez o trabalho do crítico. O ensaísta demonstra, em "A função da crítica", que tanto o artista quanto o crítico devem participar de um sistema de produção, fundamentado no que fizeram outros escritores. Para ele, a participação do artista, em uma tradição, pode permitir a obra uma validade universal; em relação ao crítico, não há diferença. É necessário que este desvincule seu gosto e suas emoções pessoais, e volte-se somente a obra, destacando a qualidade ou não dela. Segundo Eliot, o crítico deve "conciliar suas divergências com tantos colegas quanto possível, e da melhor maneira, com o propósito comum de formular-se um julgamento verdadeiro" (1989; 51). Quanto aos que se preocupam mais em revelar o gosto pessoal, tendo por base um estudo de Middleton Murry, Eliot dirige toda uma discussão em torno do perfil de muitos críticos que se dedicam "ao trabalho da obnubilação, à reconciliação, ao mutismo, ao elogio oportunista, à extorsão, ao paliativo [...] à pretensão de que a única diferença entre si próprios e os outros é a de que são homens de bem" (1998; 52). Mas, só em último caso, o crítico deve confiar na voz interior.
Ao seguir esse raciocínio, Eliot chega à concepção de que a interpretação é a falência da crítica, na proporção em que a interpretação, por mais embasada que seja, permitirá, na verdade, a visão parcial do leitor crítico, e não, precisamente, o que a obra transmite. Como diz Eliot, "'a interpretação' [...] só é legitimada quando não se trata em absoluto de uma interpretação, mas apenas de proporcionar ao leitor a posse de fatos que ele, de outra forma, deixaria escapar" (1998; 60). A essa possibilidade limitada de discutir uma obra de arte, o ensaísta opõe a necessidade da constatação de fatos importantes, realizada com base em duas ferramentas: comparação e análise; ou por outra, uma vez que a interpretação não pode ser realizada sem prejuízo para a obra, o que resta é descrevê-la, é destacar pontos relevantes para contribuir na educação do gosto estético. Para Eliot o leitor das críticas das obras será sempre um leitor de opinião, mas se não ler as obras, não atingirá a educação do gosto.
Eliot ainda professa que não há reciprocidade de talentos entre o crítico e o poeta, e revelou:

Há tempos atrás inclinei-me a assumir a posição radical de que somente os críticos dignos de serem lidos eram aqueles que exerciam, e o faziam bem, a arte sobre a qual escreviam. Mas ampliei a moldura para fazer alguns importantes acréscimos; [...] a de que um crítico deve possuir um acuradíssimo sentido do fato (1998; 59).

Afirma que "comparação" e "análise" devem ser as primeiras abordagens do crítico e que, talvez, emoção não fosse o nome mais feliz para as reações suscitadas pelo objeto de arte.



P.S.: resenha para uma das disciplinas feitas em 2005.
Cleiry de Oliveira Carvalho



















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